Blockchain, a verdade e a era da Confiança 3.0

Assim como a definição da ‘verdade’ mudou radicalmente com o advento da Internet e das redes sociais, a definição de ‘confiança’ no século XXI será reescrita por novas tecnologias como o Blockchain.

Estava começando a escrever este artigo quando o senhor Mark Zuckerberg declarou guerra contra as “fake news”, anunciando que o Facebook passará a dar prioridade aos posts dos seus amigos no feed em detrimento aos posts de notícias. Mas será que ele conseguirá vencer esta batalha? Seu “mea culpa” irá evitar que mentiras (ou falsas verdades) sejam espalhadas pela Internet?

Acho difícil. Depois da era digital, uma coisa é a verdade; outra é em quem você confia.

Quando as redes sociais deram vez e voz aos usuários, a verdade entrou em cheque e gerou uma crise de confiança, abrindo um terreno fértil para infestar nossas timelines com ‘verdades’ das mais variadas.

Mudar os algoritmos do Facebook não deve exterminar a boataria nociva pelo simples fato de que sempre haverá outros canais para viralizar posts sensacionalistas e, principalmente, por conta de uma mudança no comportamento da humanidade pós-Internet que me inspirou neste texto: o digital mudou nossa relação com a verdade, nos levando a estabelecer novas relações de confiança e a acreditar mais nas pessoas e menos nas instituições, como a própria mídia, os bancos, o governo e outras que, mesmo com os dois pés atrás, fomos obrigados até hoje, por falta de opção, a ter fé.

Quem imaginava que entraríamos no carro de um desconhecido ao invés de chamar um táxi (Uber) confiando em um ranking? Ou que aceitaríamos receber ou nos hospedar na casa de alguém que nunca vimos na vida no lugar de escolher um hotel (Airbnb)? E o que leva milhões de investidores a acreditar em uma moeda virtual sem lastro com nenhum ativo financeiro tradicional? Resposta: Confiança.

Em entrevista ao blog Futurism, a escritora Rachel Botsman, autora do livro “Who Can you Trust? How Techonology Brought Us Together – and Why It Could Drive Us Apart”, pontua: “A confiança está mudando das instituições para os indivíduos… e ainda estamos vendo as profundas consequências desta mudança, da influência na eleição presidencial ao Brexit, os algorismos e os bots”.

E continua: “estamos vivendo um vácuo de confiança que surge quando nossa crença em fatos e na verdade é continuamente questionada… Neste vácuo nos tornamos mais suscetíveis e vulneráveis a teorias da conspiração, a diferentes vozes que sabem falar com os sentimentos da pessoa acima dos fatos. É uma nova forma tóxica de transparência”.

histórias inacreditáveis de como um falsário pode influenciar a opinião de um desavisado que bota a maior fé nas redes sociais. No final do ano passado correu o mundo a saga do escritor londrino Oobah Butler, que enganou o TripAdvisor montando um grupo de amigos para regidir reviews positivos para um restaurante fake que criou no quintal de casa com o garboso nome The Shed at Dulwich. O site do restaurante está até hoje no ar e, acreditem, continua atraindo clientes.

A coisa foi tão longe que o restaurante ficou cotado como o melhor de Londres sem nunca ter de fato existido! Para desfazer a mentira, Butler chegou a chamar alguns dos clientes que fizeram reserva no restaurante e serviu marmitas compradas no mercado. O curioso, mas não totalmente inesperado, é que muitos clientes elogiaram a comida e disseram que gostariam de voltar!

Da mesma maneira que dão cada vez menos ouvido à mídia, os ‘millenials’ mostram estar mais dispostos a depositar confiança em fintechs ou no bitcoin do que nos bancos e nas moedas cunhadas pelos reis, que mereciam reverência por terem sido indicados por Deus.

Um sistema monetário tem um dos seus pilares sustentado pela confiança. Possivelmente, como já aconteceu em vários episódios na história (a quebra da Bolsa de Nova York ou a Black Monday, para citar alguns dos mais emblemáticos), o fim da confiança irá aniquilar muitas moedas virtuais, mas isso não quer dizer que elas deixarão de existir.

O grande benefício do bitcoin, além de se tornar uma alternativa (de alto risco) aos investidores, foi o desenvolvimento da tecnologia que está por trás das moedas de bites: o blockchain, um sistema distribuído que não é de propriedade de ninguém; é um ativo da Internet disponível a todos os seus usuários e que estabeleceu um novo padrão de confiança para transação de dados confidenciais e recursos financeiros.

A confiança tem um custo. E o blockchain irá ajudar a derrubar este custo. Ele é a versão 3.0 da confiança, como bem demonstra este gráfico publicado no livro de Rachel Botsman:

Na sua versão 1.0 a confiança era estabelecida no caderninho de fiado do quitandeiro ou nas moedas emitidas por reis. Era uma confiança local, peer to peer. Na 2.0 passamos a confiar nas instituições e, ao invés do olho no olho, começamos a emitir boletos e acreditar nos recebíveis carimbados pelos bancos.

Chegamos na 3.0 voltando para uma descentralização em que a segurança é garantida por um sistema em cloud, distribuído, que permitirá não apenas a transação de moedas, eliminado a necessidade de acreditar cegamente no sistema financeiro e no Banco Central, mas a construção de novos modelos de negócios baseados em relações de confiança – não serão os bancos os únicos a ser impactados pelo blockchain; muitas indústrias serão transformadas pela tecnologia.

Em resumo, qualquer negócio que for sustentado por relações de confiança e precisar de um contrato para validar uma transação entre duas ou mais partes poderá ser viabilizado pela tecnologia blockchain. Um fundo de crowdfunding, uma empresa de crédito, um banco de dados, um sistema de armazenamento e compartilhamento de documentos digitais, um sistema de logística, uma empresa de seguros.

Com um olho no futuro, o que aterroriza é pensar que algoritmos e robôs poderão analisar dados sobre nós, humanos, e atribuir notas de confiança para que sejamos ou não considerados confiáveis. Se por acaso um robô disser que você não merece crédito o que irá fazer? Se acha ficção, saiba que a China já colocou em teste o Social Credit System (SCS), que irá ranquear os cidadãos de acordo com seu status econômico e social a partir de dados coletados pelo governo.

Debater a ética sobre o avanço dos sistemas de Inteligência Artificial e da robótica se torna cada vez mais necessário, como propôs a primeira-ministra britânica em seu discurso em Davos. Ninguém vai querer deixar a decisão de julgamento moral para uma máquina ou ter interpretações de éticas que dependem do programador, da empresa ou do país de origem do sistema criado. Mas não se espante se dia desses encontrar em algum tribunal qualquer um robô-advogado.

Por: Omarson Costa é formado em Análise de Sistemas e Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet.